Lost in Translation



 "Fim de tarde, Charlotte sentada à janela do quarto no alto do hotel; lá embaixo a cidade acende suas luzes, incomensurável em sua riqueza de signos. Os sons de fora vedados pelo vidro da janela. Charlotte como que paira sobre Tóquio, de costas para a câmera, que realiza dois lentos movimentos em torno dela. Mas ali seu sentimento não é de pertença, e sim de deslocamento e solidão".
 Encontros e Desencontros é o segundo filme de Sofia Coppola, filha do realizador Francis Ford Coppola. O filme foi realizado em 2003 e com uma direção tão sensível/singular, impossível não se apaixonar pelos trabalhos de Sofia.
Dentre algumas direções, Maria Antonieta(2006); Um Lugar Qualquer(2010),Virgin Suicides(1999) Lick The Stars(Curta Metragem de 1998) e Lost in Translation ganham minha preferência.
Assisti ao filme, em sua época de lançamento(2003)foi um período bacana em minha vida, onde trabalhava no que gostava, fazia pós em minha área da graduação e ainda estava de 'namorico' com uma pessoa muito especial. Semelhante ao que acontece no filme meu relacionamento também sofreu muitos desencontros. Por essas e outras assistir este filme teve um significado único em minha vida. 
O filme se passa em Tóquio, onde Bob Harris um ator de meia-idade se instala para realizar sessões fotográficas publicitárias. Ele é casado, mas o seu matrimônio está em uma fase morna e Harris sente-se melancólico com vida. No hotel, conhece Charlotte, a jovem esposa de um fotógrafo que se encontra sozinha em Tóquio, pois o seu marido passa os dias trabalhando em outras cidades do Japão. Charlotte também se sente triste, não consegue encontrar algo em que possa se apoiar, algo que lhe dê sentido de viver. Juntos, começam a repartir as horas que não passam. Entre os dois começa a se estabelecer uma relação de compreensão mútua, que se vai afirmando à medida que passam os dias.

O nome original do filme, Lost in Translation (em português, Perdidos na Tradução), refere-se a dificuldade das personagens de serem compreendidas na cidade de Tóquio, mesmo nos momentos em que estão na companhia de tradutores. "Lost in Translation" trata-se de uma expressão americana que representa a parte cultural de palavras ou frases que se perde quando é traduzida para outra língua. Mesmo que a tradução seja feita corretamente.Em algum momento (ou em vários) da vida nos sentimos deslocados ou perdidos. E é justamente, essa mágica que o filme Encontros e Desencontros, consegue despertar em quem assisti. Mostrando um país completamente diferente dos nossos costumes, fuso horário e comunicação. A ideia de se apaixonar parece até mais atraente, não é?É justamente este encontro ao acaso que o filme nos mostra.
Ainda acho que o filme vai além deste encontro e nos brinda com essa descoberta de um novo fôlego no amor. Harris vê em Charlotte o frescor da paquera e ela o vê como um companheiro que poderia muito bem preencher seu 'vazio'.

Encontrar um amor é como um quebra-cabeça que não se encaixa. Ou porque faltam peças ou porque os desenhos não combinam entre si. Mas a gente insiste, tenta ser criativo e o máximo que se consegue é uma obra surreal, muito distante do verdadeiro amor. Muitas vezes nos deixamos levar por encontros às escuras, encontros com amigos/paqueras, encontros com ex-namoradas(os) e novamente caímos no desencontro. E voltamos a idealizar, sonhar, desejar aquela pessoa que só é perfeita quando estamos distantes dela. What a hell? Que preço estamos dispostos a pagar pra ter alguém ao lado? Não é fácil deixar uma pessoa entrar em nossa vida e sair fuçando em nosso 'eu'.
A solidão tem seu lado bom. Mesmo que familiares ou amigos discordem disto,rs.
Ainda vale a pena encarar a solidão e ir com calma em busca do encontro de um amor que valha a pena.Como no filme, na cena que Bob frequenta festas interessantíssimas, dorme tarde,experimenta um karaokê e até corre feito louco pelas ruas de Tóquio[ainda conta com a companhia deliciosa de Charlotte] no filme quando tudo parece um sonho toca o telefone de Bob e sua mulher diz:"Qual a cor do tapete que colocaremos na sala?". Tudo volta a realidade e se encaixa naquele amor condicionado a sorrisos amarelos e olhares não mais sinceros. Ser solteiro é ser livre para ir à esquina e conhecer alguma 'Charlotte" e não ter culpa.
Há algo de ruim nisso? Sim, há.Somos românticos. E o pior: incorrigíveis.
Queremos alguém pra andar na chuva [mesmo que não seja em Paris a meia noite,rs], alguém para tomar cappuccino assistindo Dexter, uma companheira para ir a padoca da esquina... Daí, muitas vezes temos o desencontro e acabamos saindo com qualquer pessoa. Ou por lado, esperamos, esperamos e esperamos... Decidimos não procurar, caindo nas mãos do acaso(o que no filme foi parcialmente bom). Imaginamos que, a qualquer momento, o encontro acontece e 'ring the bell'. Enquanto, isso não acontece vivemos as delícias e as dores dos encontros, reencontros e desencontros. E talvez, um dia a sorte de ter um "amor tranquilo" e dizer: é ela!.
Lost in Translation,  é bom de ver pois nos mostra grandes momentos, individualizados no tempo e na história, que valem por si mesmos, é um filme que não fica na cabeça como algo a ser digerido lentamente, mas sim desperta vontade de ser visto e revisto no dia seguinte. É sensível, belo, efêmero. Como se não bastasse, ainda temos a trilha sonora que está longe de ser ilustrativa, é narrativaTemos a pureza do significado em um simples gesto de olhar. Até agora, depois de tudo que você leu ainda preciso teclar mais motivos para que assista ao filme
Ok,vamos a cena do Karaokê? Um 'emocionante ecstasy' de sensações, em que cineasta e personagens disputam o mesmo olhar sobre a cidade, e talvez o mesmo sentimento sobre o mundo.

Mais motivos? Temos Lance Acord, que trabalha espetacularmente a fotografia do filme apresentando o universo multicolorido de Tóquio preservando sua materialidade. 
Outra observação presente no filme é a relação entre duas pessoas e um amor não consumado fisicamente, alimentado pelo(des)encontro,onde vemos um enorme teor de verdade. O ato da realização do encontro ou não é uma mera questão de fuso horário, o tempo de cada um [personagens aspirações, compromissos ou puramente a máxima:"Não pertencemos a Tóquio". 
Para fechar ainda temos, 'Just Like Honey', uma música cuja sutileza nos brinda com a memória afetiva mais perfeita que um filme possa proporcionar.


 

7 comentários:

  1. Pat,

    Que resenha mais sensível e carinhosa.
    Gosto muito do filme e concordo contigo quanto a singularidade da Sofia.
    Scarlett, é linda e está magnifica em Lost Translation.
    ps.:fiquei emocionada ao ler este post tão sincero e novamente fiel ao filme.

    Beijos minha eterna Amelie*

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  2. Gostei do texto Pati. Muito bom!

    Coppola estava no auge com este filme, não que ela atualmente tenha perdido o toque, inclusive quero conferir seu novo filme "Bling Ring" com Emily Watson, mas "Lost In Translation" é o ponto alto de sua obra. Murray excelente e fiquei fã de Johansson a partir daí. Ela consegue filmar o tédio com poesia, aliás, temática principal de todos os seus filmes, principalmente o subestimado "Um Lugar Qualquer", revendo o filme, há momentos brilhantes. Também aprecio o trabalho de Lance Acord, fundamental, inclusive ele também trabalha com o diretor Spike Jonze, ex-marido de Sofia!

    Beijos.

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  3. Pat, lembro que assisti esse filme há algum tempo e gostei demais...

    bjks

    JoicySorciere => CLIQUE => Blog Umas e outras...

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  4. Patty querida:
    Linda e sensível resenha! Eu diria que em alguns momentos, verossímil com a vida que alguns de nós eventualmente tivemos em algum espaço de tempo, por esse ou aquele motivo e tal. Mas, voltando às personagens principais, Harris e Charlotte, cada qual com as suas 'vidas' de certo modo, traçadas, mas aí o "destino" lhes prega uma peça, aproximando-os, ironicamente num país distante dos seus e fusos horários igualmente diferentes. A despeito das diferenças de idade e, portanto, frescor de juventude,um encontro fortuito, mas o suficiente para despertar em seus corações o desejo de carícias, afetos, o toque de corpos, uma saciedade flamejante enfim, mas ironicamente não consumada! Encontro às escuras? Carências afetivas? Desejos de estarem juntos? Quando o amor acontece, não existe o acaso; simplesmente acontece, e é absolutamente impossível definir o amor.., porque a gente o sente e ponto. tudo o mais, é mero detalhe! Existe mais mistério entre o céu e a terra, que possa imaginar a nossa vã filosofia! Creio que é essa a mensagem que a Sofia Coppola tenta nos passar com essa linda e comovente história!
    Bejokas!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Desculpa, I'm totaly LATE!
    Mas eu cheguei, gatissima!(rs)

    Gata, ótimo texto e descrição do filme.
    Quem não teve vontade de ver depois desta sinopse, deve ter sérios problemas com leitura e compreensão de texto!(rs)

    Bom, esse é um dos meus filmes favoritos, (você sabe...)não só pelo fato de ter excelentes atores, direção deslumbrante de Sophia e a maravilhosa cidade de Tóquio, mas pelo fato de sempre ter sentido na pele o espírito do filme, "Me perdindo na tradução" desde 1992.

    Esse filme mostra exatamente quando você está num país como o Japão, que tudo e todos são 360 graus diferente de tudo que você já viu e ouviu na sua vida inteira.
    Tudo parece surreal, você sempre está no meio de uma multidão e ao mesmo tempo se sente só.
    Já senti isso em SP, mas é diferente. Aqui você se sente mais estrangeira(praticamente um ET) do que em outro lugar, podem reparar no filme mesmo, a maneira de como eles veêm os personagens(gringos). Os olhares as vezes são dolorosos, machucam mesmo.
    E apesar de dominar a lingua, ter decendêcia, ter nacionalidade, ter amigos japonêses, as vezes tem coisas que não tem tradução correta e nem Google pra facilitar...

    Esse filme é realmente o espelho de todo gringo que vive aqui, não é somente um filme de romance.

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  7. Conseguiu transformar em palavras o que sentimos ao ver este belo filme. Obrigado por essa bela resenha.

    Abraços.

    PS: Eu pagaria 1 milhão para saber o que Bob disse para Charlotte...

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"O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho." (Orson Welles)

 

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