Ma Nuit Chez Maud: uma análise da representação dialógica sobre a paixão



Hoje, ao escolhermos um filme e entrarmos em uma sala de cinema temos expectativa de que o filme prenderá a nossa atenção a cada cena, caso contrário, não valerá à pena assisti-lo. Serão oitenta minutos de emoções: drama, dor, vingança, superação e infortúnios postos com tal força e primazia que nos faz querer trocar de lugar com o personagem. Substituir a vida racionalizada e monótona do nosso cotidiano pela emotiva e incerta vida de um personagem ou que reflita o mundo de emoções internalizado nos sujeitos nos parece uma saída. Esperamos ansiosamente que provavelmente tenha um final feliz, mas se não houver final feliz não haverá problema, o importante é que a estética cinematográfica espelhe as subjetivações do público. Há uma diversidade de elementos cuidadosamente pensados e articulados em nome de uma reação dos sentidos. O elemento diálogo que nunca foi negado completamente na cinematografia parece o mais objetivo destes elementos – particularmente na cinematografia americana pós cinema mudo – , mas foi reduzido a uma mera ferramenta de auxílio a toda composição subjetiva que prende o cinéfilo, parece não ter mais a complexidade esperada. Ao que parece, encaixar certos termos nos diálogos ou encadear certos raciocínios complexos não interessa ao cinema: “o filme não pode ser chato, nem cansativo”. Por isso considero Ma Nuit Chez Maud de Eric Rohmer um filme fantástico, aposta principalmente no diálogo dá ao filme a qualidade de ser claro na sua composição subjetiva sem abrir mão dos dramas da vida, em particular um que atenta os homens há vários milênios, o acaso do destino.
            O filme gira em torno dos diálogos de quatro personagens. O principal deles seria a vida e as escolhas de Jean-Louis, ou mesmo da ausência delas – que em voz off, narra como conheceu e se decidiu pela mulher com que viveria sua vida. Um engenheiro e cristão praticamente que se professa crente na predestinação. Este personagem que, ao acaso, após vir da América do Sul, encontra um velho amigo de colégio de nome Vidal, professor de filosofia, em um café aonde irão discutir Pascal e as probabilidades do acaso. Entretanto, o mais intrigante, é que esse mesmo amigo o leva a casa de uma mulher encantadora, Maud, com quem o diálogo sobre Pascal, o acaso, cristianismo, ateísmo entre outros assuntos que que tentarão compreender a dimensão da autonomia humana diante do destino. O último personagem relevante para o filme é uma moça católica e loira chamada Françoise. Ela aparece logo no início, Jean-Louis a vê na mesma igreja que frequenta, em meio aos sermões do padre, contudo, não a nada que os ligue naquele momento se não opção religiosa e uma troca de olhares ou um possível interesse das partes. Para a composição dessa pequena resenha, nos interessa o diálogo de Jean-Louis e Muad.

A paixão humana é o objeto ao qual o filme aborda com muita propriedade. Duas pessoas que se encontram e uma terá sua paixão cruzada por dois destinos possíveis e somente um deles se concretizará. Paixão e diálogo, uma bela mistura a reflexão sobre o amor. A grande pergunta do filme, ao meu ver, seria pensar se é possível determinar racionalmente os ditamos da paixão e não sucumbir às suas armadilhas. Sabemos tudo que envolve essa razão? Ou será como diz Pascal: “ O coração guarda razões que a própria razão desconhece”. Aliás, a paixão cruza o caminho de todos e, cada um a encara com seus próprios recursos. Devemos ficar atento ao fato de que todos se frustram com algo nesse movimento apaixonado, ninguém se realiza completamente. Cada um tem um jeito de lidar com a sua própria frustração, uns se resignam diante da imposição das escolhas e do destino e outros se afirmam e reinventam formas de amar como quem vai viver tudo novo de novo.
           
 Historicamente, sob a face dos diversos povos, a paixão guardou seu nome e sua forma muito particular de exercício. Encontraremos modos muito singulares de exercício do ritual que envolve o amor. Discursos muito variados sobre a prática dos relacionamentos apaixonados. Discurso este que por vezes tem a intenção de descrever a natureza da paixão por meio de sua gênese, de sua natureza, da sua condição, da sua efetividade, da sua circunstância, das suas normas, dos interditos e forças naturais, das dietas alimentares e dos sonhos. O exercício discursivo sobre a paixão me permite uma possibilidade de compreender Minha Noite com Ela e pontuar questões peculiares que envolvem o discurso sobre o Eros dos gregos e o discurso sobre o amor ocidental moderno e o contexto cultural que encadeia estes discursos. Obviamente que o contexto do filme é o da França na década de 60, entretanto, considerando que se trata de uma obra de arte, transpõe o tempo e, como toda bela obra, estabelece diálogos que tornam essa obras únicas que se estabelecem em um diálogo universal sobre uma condição humana, neste caso em particular, a paixão.
            Em Minha Noite com Ela os diálogos sobre a paixão são os mais intensos e aqueles que ocupam maior parte dos enigmas ligados aos sujeitos envolvidos nela. O filme se inicia com Jean-Louis em uma igreja, e como é próprio da cultura cristã, a oração proferida pelo padre veio carregada de resignação e culpa. Ao invocar a citação de João no meio da missa, isto é, 
 “No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”, "embora não a cite completamente, fica patente sua relação com a resignação e a culpa. Na medida em que, segundo a tradição cristã, o cordeiro é aquele, no Velho Testamento, redime os pecados dos arrependidos da culpa, no Novo Testamento, o cordeiro sacrificado em nome dos pecados humano é o próprio Jesus Cristo. Jean-Louis segue com Françoise na cabeça e dentro da narração off, diz: “Naquele dia, segunda-feira, 21 de dezembro... me veio a ideia repentina, precisa, definitiva... de que Françoise seria minha esposa. Repentino, precisa e definitiva, como algo que desce de repente, entretanto, a convicção é o mais impressionante, como se uma razão divina lhe tivesse imposto sendo inútil lutar contra. Consecutivamente, em outra cena que se segue no café, aparece uma leitura de Pascal, no texto dizia, entre outras coisas: “Isso vai diminuir as paixões, que são seus maiores obstáculos”.


Por um lado, temos um movimento de predestinação, de um sujeito encantado, do outro, a ideia de que a paixão deve ser suprimida em nome dos fins a serem atingidos. 
 É um desejo, Jean-Louis deseja Françoise. A partir de toda uma referência religiosa e simbólica ele concebe um desejo por uma mulher e nessa concepção está traçado seu destino: com Françoise. É uma espécie de projeção estruturado por uma escolha não individual onde o destino há de arranjar-se para se fazer cumprir aquela espécie de profecia. A referência do universo simbólico é o da predestinação onde encontram-se a renúncia e a resignação, trabalhar para que o destino se cumpra e aceitar aquilo que é divinamente destinado. Gostaríamos  remeter essa relação ao clássico texto de Platão, O Banquete, a leitura que teríamos do desejo de Jean-Louis seria bem adequada. A qualidade dos textos platônicos está em perceber a beleza iminente no mundo dos objetos e a impossibilidade dos sujeitos alcança-las no mundo corruptível. Ou como bem disse Franco, “(...) Eros é capaz de fundar no sujeito a sua suposição de plenitude, por outro lado, ele é incapaz de satisfazer-se plenamente com os objetos particulares do seu desejo” (1989. p. 27). Em conformidade com a autora, gostaríamos de atentar que Eros não pode ser confundido com agapé (uma espécie de amor fraternal, muito difundido pelo pensamento medieval e que encontrou na modernidade alguns defensores). 

Em O Banquete, livro que discorre abertamente sobre as virtudes de Eros, segundo Sócrates, o amor não pode ser físico nem intelectual, nem da harmonia dos opostos, nem o desejo de encontrar esse oposto, muito menos da identificação entre o amante e o amado. Estas são todas teses que são enunciadas nos diálogos pelos pares de Sócrates, as quais ele os rejeita em nome justamente em nome de um amor que não se realiza plenamente. O amor, segundo ele, é um amor por aquilo que se ausenta, se ele se encontra ausente, é desejo. Seria a impossibilidade de conquistar esse amor? Não. Ao lermos Platão, sabemos que a plena realização está no mundo etéreo, entretanto, a possibilidade de alcance do Eros platônico está no desenvolvimento da inteligibilidade. A desajeitada entrada de Alcebíades, amante de Sócrates, no cenário dialógico insinua essa falta de habilidade com a paixão. Alcebíades é um general, falta-lhe a delicadeza de compreender as sutilezas do desejo e aonde encontra-lo e como encontra-lo a partir de uma postura filosófica. Ao voltarmos a pensar a situação de Jean-Louis que o desejo dele emerge com uma forma de inteligibilidade ressentida. Ele não é tomado pela emoção por completo, compreende a indomabilidade da paixão, mas aquilo que estiver passível de sua ação, o fará. Mas fará em nome de um ideal a ser realizado e domado a partir de uma racionalidade moderna, escolhas feitas com fins a serem alcançados. 

Entre os gregos, o conhecimento iminente do sujeito na caverna ou mesmo o “conhecer-te a ti mesmo” de Sócrates são incompatíveis com essa postura de planejamento, embora, em muitos momentos Jean-Louis conta com o acaso. Contudo, ao nosso ver, ele renuncia outros acasos em nome daqueles que ele idealiza.
Obstante, para sermos justo com a história, é necessário dizer que a cultura grega tinha representações bem diversas da cultura ocidental, particularmente da cristã. Talvez Nietzsche tenha sido o primeiro a explorar bem os significados da cultura grega em O Nascimento da Tragédia (1992). A oposição entre o apolíneo e o dionisíaco foi um caminho que Nietzsche encontrou para mostrar a criatividade e a afirmação grega através das tragédias. Colocar as forças ativas que conduziam a representação do mundo através da ótica grega. De um lado a razão, o apolíneo e, consequentemente, também o diálogo, do outro, Dionísio e também a experiência dos sentidos. São relações complementares que potencializam o modo de vida grego. Essa é a ruptura drástica em relação a civilização Ocidental, enquanto os gregos são criativos – a arte não somente representa essa criatividade, mas também é criativa – os cristãos seriam ressentidos e reativos.
Portanto, para entendermos as atitudes de Jean-Louis, essa busca obsessiva pelo desejo, devemos retirar a sua relação com o ébrio ou mesmo com a circunstância que o destino lhe reserva. Ao observarmos, todos os heróis trágicos da antiguidade morrem cumprindo o destino professado pelos deuses, mas todos eles aceitam seu destino, mesmo lutando contra até o fim, nenhum deles se mostram resignados diante do infortúnio. Jean-Louis é o típico sujeito que não se deixa sucumbir completamente ao acaso, ele quer ter seu destino em suas mãos. A prova mais concreta desse fato é seu encontro com Maud. A bela Maud era, sobretudo, a liberdade, contudo, ele preferiu a segurança de uma “mulher loira e católica”.

Levado por Vidal a casa de Maud, os três tomam vinho e fazem diálogos desconcertantes sobre Pascal, religião e paixão. Os diálogos são muito bem articulados, a maior parte da sua estrutura se dirige em dar papéis aos seus protagonistas. Maud é um antigo desafeto de Vidal, com quem dormiu em uma noite por “falta do que fazer”, afirmação feita pelos dois em momentos diferentes e sem a presença do outro. Maud entra em um jogo de querer conquistar Jean-Louis. Inteligente e resolvida, ela não se intimida ao travar uma batalha dialógica com dois homens e nesse dialogo, em determinado momento ela pretende conquistar Jean-Louis. Mas para conquistar Jean-Louis ela precisará dizer para Vidal que ele é desnecessário ali. Indiretamente Vidal diz olhando insinuadamente para Maud que “É a favor dos amores de viagens, porque não tem um aspecto burguês” citando seus amores. E para provocar Maud, ele pergunta a Jean-Louis o que faria se acontecesse, naquela noite, um amor de acaso, entre ele e Maud. Obviamente ele já sabe das intenções de Maud, mas Maud não se esquiva. Quando Jean-Louis tenta esquivar da pergunta, Maud o encara e pede pra que ele responda. E Jean-Louis segue uma linha de esquiva das repetitivas perguntas sobre si, como uma ovelha diante de leões. Este é um dos diálogos de extrema representação e elucidativa no que toca a esse universo criado pelos três e revelando as posições ressentidas de Jean-Louis. Ainda porque as resposta de Jean-Louis estão sempre na negativa, tentando fazer com que suas verdadeiras intenções não venham à público, tentando fazer que seus verdadeiros e vergonhosos desejos fiquem escondidos em algum lugar despercebido.
Interessante que nesse aspecto, Maud é a personagem que se destaca. Ela realmente carrega a liberdade de ser única consigo, ela sabe disso e a usa a seu favor sempre que pode. Ao meu ver, ela reuni dois elementos de exercício dos cuidados da alma que se desligaram da vida social com a tradição cristã nos primeiros séculos da nossa era: a Aphrodisia e a Parrhesia. Estes dois elementos estão ligados aos cuidados de si e do outro nas tradições gregas e romanas, e disseminada entre os filósofos daquele período. 

Obviamente que Eric Rohmer não deve estar fazendo referencias explicitas a nenhum autor da filosofia e nem a antiguidade, entretanto, os autores citados aqui ou são contemporâneos de Rohmer ou são base para pensar personagens como Maud. Certamente, a referência está ligado muito mais ao contexto que a França vive no momento da montagem do filme que propriamente os autores, o que por necessidade, os ligam. 



Para entendermos a questão da referência, a grosso modo, Maud se manifesta ateia e mesmo que não se manifestasse, seu comportamento a denunciaria. Neste sentido, podemos atestar algo que para mim soa como uma reflexão extremamente séria: mesmo que vivamos sob uma cultura que tende a hegemonizar comportamentos por meio de uma economia financeira, existe uma economia dos prazeres que pode ser exercida livremente, inventada e reinventada a partir de quem somos. Maud é a representação cinematográfica da diversidade que o indivíduo faz do seu exercício moral que pode tomar para si e para o outro. Entretanto, existem mais rupturas entre a civilização grega e a ocidental. As formas com que valorizamos nossa individualidade é um dos aspectos mais marcantes dessa ruptura. E ao estendermos o dispositivo individualidade ao Eros moderno iremos perceber que as formas de existência ganham outro significado e representação. Franco ao mencionar Os Sofrimentos do Jovem Werther, diz
A inacreditável liberdade com que se entregava ao amor inclinava no espírito de um homem que se individualizava: não era apenas do compromisso social que ele se livrava, mas da humanidade que seu valor humano poderia compartilhar com os outros. Ele não se suicidava porque o mundo havia sido ingrato, ou porque o destino havia sido com ele implacável e o forçara a tal ato; soberano de si, ele era capaz de decidir a própria morte; mais do que humano, ele descobria-se extraordinariamente único. (FRANCO, 1989, p. 21 e 22)

 A princípio temos que admitir que Maud nunca negou o casamento, ao contrário, reclama do azar de não encontrar alguém que goste dela e que ela goste. Ainda que em uma relação fora do casamento – fruto das concepções modernas de relações – ela pensa no outro como uma situação de unidade e complementaridade, alguém que se possa dividir. Em determinado momento do filme quando perguntado do amante por Jean-Louis, ela diz: “Isso prova que sou muito azarada. Sempre que quero conseguir algo, fracasso. Eu pensava ter encontrado o homem da minha vida. Alguém... que gostava de mim e de quem eu gostava”. E então segue relatando o acidente de carro que matou o amante e conclui: “é o destino”. Existem duas questões que merecem nossa atenção. A primeira é a ideia de complementaridade. Maud é divorciada, em inúmeros momentos ela elogia o ex-marido e diz que o amava loucamente, que é o homem a quem mais estima, mas justifica sua separação porque ele a irritava profundamente. O ponto da complementaridade nela fica claro quedo ela se coloca disposta a tentar ser feliz e contribuir para esta felicidade. Não é o tipo de ateia que simplesmente aboli a vida matrimonial como repulsa ao cristianismo ou qualquer outro comportamento religioso. Ela assumi a ideia da felicidade a dois de tal maneira que no fim do filme, em um reencontro com Jean-Louis, anos mais tarde, ela está casada novamente. 

Michel Foucault quando escreve seu livro A História da Sexualidade III – o cuidado de si, encontra nos séculos iniciais da era cristã, uma cultura de si dentro das práticas sexuais do casamento exercícios parecidos com as intenções de Maud. Obviamente que não queremos fazer nenhuma transgressão ou anacronismo histórico, mas pensar outras formas de cuidado que não o exercício legitimo matrimonial cristão era possível na década de 60 francesa. Quando Foucault levanta essa questão histórica, nos remete a ideia de diacronia entre a relação conjugal que emergia entre os gregos – notadamente Aristóteles – que o fazia de maneira hierárquica (2005, p. 161) e a relação conjugal que entre os pensadores romanos – notadamente Sêneca – que atribuía igual capacidade para a virtude em ambos os sexos para a realização para a dimensão afetiva da vida conjugal (IDEM, p. 163).
A segunda questão que me chama atenção é a ideia de um destino entre a fortuna e o infortúnio. Ela não procura controla-lo como Jean-Louis acredita fazer. Sabe que é dentro da relação que a felicidade acontece, não em algo racionalmente planejado. Sabe que é na relação de pensar a si e ao outro que virá as respostas para a felicidade. Tanto que o azar dela foi ter perdido o amante em um acidente de carro. Ela sabe que não soube conduzir o casamento, mas não se responsabiliza completamente, entendeu que o ex-marido não a satisfazia. Mas usa o dispositivo das escolhas individuais para lutar em favor daquilo que acredita, afirmando-se enquanto sujeito de sua própria existência. Por isso, Maud é, sem exageros, a peça radicalmente divergente de Jean-Louis. Prefere arriscar a felicidade sozinha ao entrar em um casamento por conveniência social. 
Certamente não podemos cair na tentação de atribuir todas as características da aphrodisia à Maud, seria um erro fatal. Entretanto, ela é um personagem com enorme potencialidade pare a realização da aphrodisia descrita por Michel Foucault. Ela encara a possibilidade da relação matrimonial como um lugar para cuidar de si e cuidar do outro. Quando ela percebeu que seu ex-marido não era o homem com quem seria feliz, optou por si mesma. Não optou por egoísmo ou narcisismo, mas por saber que não seria e nem faria feliz, tanto que não mal diz do ex-marido e ao que parece o ex-marido também lhe quer bem. Havia uma amizade natural entre os dois, mas não uma relação conjugal o qual faria uma relação singular. Isto é, a amizade seria uma peça fundamental para a relação matrimonial, entretanto, ele descreve três formas de casamento que está em Plutarco, mas onde o último elemento pode ser encontrado em Mosonius também. Primeiramente, os casamentos que são contraídos para os prazeres da cama, segundo os casamentos que são concluídos por razões de interesse e, terceiro o casamento por amor que ele chamará de fusão total. (IDEM, p. 163 e 164) 

Dos três, o último tem a característica de mistura por justaposição onde o casal se junta e se mistura como a água e vinho, formando, assim, um novo liquido. Foucault alerta que isoladamente esses textos não representam a prática do casamento, mas que devem ser tomados como justificativa para entendermos porque “A arte da conjugalidade faz parte integrante da cultura de si”. (IDEM, p. 164) Destas três noções, Maud se aproxima muito da terceira, não há como negar que ela deseja amar, se não ama o marido, procura outro a quem ame e seja amada.




Um outro elemento que poderia ser denotado dentre as potencialidades de Maud é a parrhesia, característica essa bem mais forte que a aphrodisia na personagem. A definição do primeiro termo que gostaria de usar aqui é uma descrita pelo próprio autor,
Na parrhesia, o que está fundamentalmente em questão é o que assim poderíamos chamar, de uma maneira um pouco impressionista: a franqueza, a liberdade, a abertura, que fazem com que se diga o que se tem a dizer, da maneira como se tem vontade de dizer, quando se tem vontade de dizer e segundo a forma que se crê ser necessário dizer. (Foucault, 2006, pag. 450)

Um dos pontos que compõe a parrhesia descrita por Michel Foucault no seu livro póstumo A Hermenêutica do Sujeito, segundo Sêneca e que nos interessa, pois parece, estas as características de Maud, é a recusa da retórica popular e da lisonja. O tempo inteiro Maud usa de um franco falar para chegar até Jean-Louis. Em todos os diálogos, Maud não faz questão de esconder o que pensa ou o que quer que saiba ou fica tentando achar argumentos para explicar o inexplicável – talvez esse último seja mesmo o papel de Jean-Louis. É Jean-Louis é quem esconde o afeto por uma “mulher loira e católica”, é ele quem nega os amores do passado como aventuras como experiências sem importâncias. Maud não somente assume essas posturas como deixa bem claro a intenção de dormir com Jean-Louis naquela noite de visita. Cada palavra de Maus é interrogativa porque quer chegar ao algum lugar com objetividade – este lugar é Jean-Louis – ou uma afirmação do qual ela realmente crê. Percebemos isso quando da discussão em que ele não sabe se deve ficar para dormir na casa dela ou não, ela diz convicta: “Eu, quando digo sim, é sim. Quando digo não, é não”.
            Ao meu ver, o filme de Eric Rohmer nos prende pela possibilidade do que pensar e traduzir livremente sua contextualidade. Ao contrário do que poder-se-ia, o filme não esconde nada, ele mostra passo à passo objetivamente as possibilidades sobre a paixão, como podemos encara-la, mas sobretudo, como o acaso é contingente. Foi possível pensar uma bela reflexão sobre o que é autonomia e heteronomia quando se trata de fenômenos que nascem da força da vida, mas sobretudo, foi possível ver como a ação do homem, individual ou coletiva, usa de diferentes recursos para lidar com uma natureza que parece desconhecida, a própria natureza humana. A mim fica a reflexão, é possível controlar os eventos do acaso? É possível controlar a paixão? E essas duas forças centrifugas e centrípetas ao mesmo tempo.
            Do ponto de vista estético da linguagem cinematográfica, o diálogo construído por Rohmer parece simples e genial. Obviamente que os quadros, as cores, os closes ajudaram a compor uma estética que fizeram dos diálogos verdadeiros discursos de convincentes preocupações humanas. A arte do cinema parece ter evoluído com toda tecnologia possível, mas seria razoável perguntar se o telespectador saberia voltar ao princípio e assistir, por exemplo, Lars Von Trier em seu belíssimo Filme Dog Ville (2003). O sucesso de público e fracasso de bilheteria de Dog Ville responde a nossa pergunta. Não quer dizer que usar tecnologias seja um erro, muito pelo contrário, mas se perguntar qual a finalidade do uso destes recursos pode nos levar a uma resposta de que estamos desperdiçando uma enorme potencialidade criativa. Minha Noite com Ela parece ter nascido no tempo certo com recursos necessário, parece não ter desperdiçado nada da sua potencialidade, é tudo muito usado no seu tempo, sem excessos nem faltas, talvez por isso tenha ganhado a tão valorosa Palma de Ouro. 

*Esse texto é resultado da disciplina "A Escola do Real: metamorfoses do amor e as patologias da comunicação

Bibliografia básica

FOUCAULT, M. A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
______. História da Sexualidade 3: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 2005.
FRANCO, Irley. Eros Platônico e Moderno, In: O que nos faz pensar. Cadernos do Departamento de losoa da PUC, Rio de Janeiro, n. 1, p. 15-28, 1989.
NIETZSCHE, F.  O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
PLATÃO. O Banquete, ou, do Amor. Rio de Janeiro: DIFEL, 2010.


1 comentários:

  1. Quando vi, fiquei com essa impressão: um filme sobre paixão, ineficácia ou excesso de comunicação e solidão. Mas, esse texto esclareceu muitos pontos, inclusive sobre o que quase não vimos mais - simplicidade nas telas, ou seja, boas atuações em um roteiro que funcione. Sem fireworks ou firulas.

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"O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho." (Orson Welles)

 

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