Algumas reflexões acerca de "Life of Pi"

               
           Um dia disse Nietzsche “Depois da morte de Buda sua sombra se mostrou durante anos na caverna; sombra enorme e aterradora. Deus morreu, mas os homens são de tal modo que haverá ainda, talvez, cavernas na qual sua sombra se mostrará”. E eu gostaria de entender Nietzsche, de comungar na sua reflexão sobre os homens, ainda porque imagino que esta reflexão não tem nada a ver como Deus ou Buda.
                Esta semana assisti o filme “As aventuras de Pi”. Um filme simplesmente fascinante por sua beleza. O Ang Lee por si mesmo já seria um bom motivo para assisti-lo, mas tem mais, muito mais. O filme tem propósito, nos deixa à vontade para pensarmos, para sentirmos a nós mesmos, no fundo o filme tem um segredo muito simples: assim como Nietzsche, deus não tem a menor importância, no entanto, assim como no texto de Nietzsche, deus esta ausente na sua presença: é um filme sobre homens.
                Quem nunca se sentiu meio dividido? Entre o credo e o descrença? Entre a loucura e a razão? Entre o carnal e o divino? Ou como queira os filósofos, entre um certo materialismo e a metafísica? “As aventuras de Pi” conta a história de um menino indiano que cresce dividido entre a importância da matemática racional crescente em uma Índia pós descolonizada professada e ensinada por seu pai e o sentimento religioso e extremamente complexo do hinduísmo pela via materna. Tudo isto será posto na prova na medida em que Pi se encontra em naufrágio. Sozinho, lutando contra o animal dentro de sí, aprendendo a dominar suas próprias paixões, seus próprios apetites, ele se encontrará consigo mesmo, semelhante ao caminho de Compostela, mas passado em auto mar. 
                Entretanto, quando eu penso nas questões concernentes a Pi ou sujeitos que guardam dentro de si a sutil delicadeza de usar os diversos tipos de conhecimentos como ferramenta para viver e se afirmar no mundo onde homens lutam como feras pelo status de liderança da manada, eu penso quanto é complexo e contraditório o ser humano. Pi é tão superior aos outros homens e, de tal maneira, que em determinados momentos sua luta não era mais contra os homens, mas contra si mesmo. Não se tratava de dominar os homens, mas de dominar seu próprio gênio. Ao passo que o domínio de Richard Parker no meio de sua jornada se tornou impossível, a única solução foi se tornar seu companheiro de naufrago.  
                Pi é um sujeito fantástico. Sua história se inicia ao encontro de outra história, a de um jornalista que abandonou um romance, isto é, ao que parece, abandonou a si mesmo. “Foram dois anos tentando dar vida a um livro, um dia ele adoeceu e morreu”. Entre suas lamentações e sua busca desesperada de encontrar uma história ou a si mesmo, o jornalista lhe procura e diz que Mamadi (amigo comum) lhe faria acreditar em Deus. A resposta de Pi foi “Assim como com Deus, eu só vou lhe contar minha história. Você decidirá sozinho em que acreditar”. Então começaremos uma longa jornada pela “Vida de Pi”, título mais apropriado ao filme.
                A grande questão deste filme é esta, entre o racional e o irracional, tudo vira ferramenta e arma para sobreviver, mas o que fazemos com estas armas e ferramentas e o que diferenciou Pi do resto dos homens. Pi é levado por uma toada em sua história, um conselho de Mamadi, exímio nadador de piscinas que lhe diz “Uma boca cheia de água não vai matar você, mas o pânico vai”. Isto é, conheça a ti mesmo e saberá o que fazer quando encontrar as feras que habitam dentro de ti.
               No entanto, existe um universo de forças que escapam ao controle dos homens, por exemplo, em seu nascimento, é muito curiosa a citação sobre “Os caminhos do Karma, os caminhos de Deus”. Isto porque para que ele pudesse nascer, um herpetólogo ajudou sua mãe em seu parto, no entanto, foi-se a vida de um lagarto de bengala que morreu ao ser atropelado acidentalmente por um casuar assustado. Parece uma vida pela outro, ou só um acidente...
               Parece estar presente nesta introdução a ideia de que existem forças exteriores aos homens, razões que não os pertencem e que não é possível dominar e assim como tal, devem ser aceitas para que possamos nos aceitar enquanto tais. Entretanto, na medida em que estas forças chegam a nós, não devemos ser alheias e nem indiferentes a elas, deveríamos saber como lidar com elas. Neste caso, aceitar não significa ser pacífico e nem agressivo, mas compreende-las.
               Esta pequena introdução pode ter uma pequena resposta mais a frente pela boca da mãe de Pi, mas imagino que não seja a única quando diz que, “A ciência compreende o mundo de fora, a religião compreende o mundo de dentro”, isto é o que a mãe de Pi responde quando ele é questionado por seu pai em virtude das suas três religiões que ele adquire após conhecer o Islamismo e o Cristianismo. Imagina que viver sem religião neste mundo é extremamente complexo por contrariar inúmeros preceitos da moral humana básica, isto é, sempre haverá uma ordem superior ao sujeito. Neste caso, entendo que Pi foi um pouco mais longe conseguiu harmonizar dentro de si três diferentes ordens morais e conviver com elas dentro de si. Simplesmente fascinante.
                Mas ao julgar pelas linhas implícitas no filme, as experiências religiosas, a comunhão com o sagrado e o profano são aquelas que todo homem deve experimentar um dia, mas será uma experiência solitária que somente a pessoa poderá decidir o que fazer. Por isso Pi é somente um contador das próprias histórias, da própria experiência com a vida, que pode ser transmitida, mas nunca imitada, pois ela é única. Gostaria de sugerir que Ang Lee foi o homem que procurava uma história, assim como um jornalista que tentava dar vida ao livro, Ang Lee procurava dar vida a seu filme e, sobretudo, um porque de acreditar em Deus, o papel se encaixa perfeitamente, mas tenho muito pouco argumento para sustentar tal hipótese.



6 comentários:

  1. Roni,

    Gosto do seus textos, tanto é que te convidei para estar aqui ;)
    Nosso blog é gostoso, justamente por essa liberdade na escrita, simplesmente, quando estamos inspirados presenteamos nossos leitores com textos maravilhosos e reflexivos.

    Life of Pi,
    well, não queria assistir,rs. Quando um amigo indicou(Felippe Mendonça) logo, pensei: 'hum, mais um filme de auto ajuda...Se bem, que gostei de À procura da felicidade..rs.
    Logo, meu amigo me deu um chacoalhão: "Nada a ver com auto ajuda- ASSISTA!"

    Lá, fui eu..e gostei.
    Não tenho religião(algo criado pelos homens, somos dotados de defeitos, fico um dúvida quanto a religiosidade feito por humanos para humanos...) porém, creio no Universo(sua força) sou fã de Stephen Hawking, Carl Sagan, sua teoria sobre expansão cósmica/máxima solar, adoro ler sobre big bang, tenho predileção pela crença em algo anterior ao big bang...o que seria?
    DEUS?

    Se alguns físicos, estudam e possuem muito o que pesquisar sobre o assunto...quem somos nós, não é?
    Aliás, assista este excelente documentário: QUEM SOMOS NÓS!(vai gostar) voltando ao se texto, amei a introdução e seu pensamento sobre o filme e a existência ou não do divino.

    Única coisa que tenho certeza, somos infinitamente microscópicos(menores que grão de arroz) vistos sob ótica do Universo.

    Bacana, não?

    beijos meu querido amigo,

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    1. Patt, vc é foda. Sempre da seu ponto de vista sobre as coisas. Não elogia por elogiar, eu gosto disso. Vou assistir sim o filme que vc indicou, eu sempre me surpreendo com as coisas mesmo. Sobre Life of Pi, acho q era uma explicação q eu estava precisando sobre mim mesmo. acho q era isso.

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  2. Que texto gostoso de ler.

    Life of Pi, é daqueles que remete nossa profunda reflexão...ou não, né?
    Pi, pode ser um verdadeiro contador de histórias e cabe a nós qual versão escolher.Em resumo, pra mim, o verdadeiro astro do filme, foi sem dúvida, o Richard Parker,que efeito não é?

    Menino Roni,

    Escreva mais e mais, gostei do texto, beijos.

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  3. Então, eu tenho a leve sensação que Richard Parker, e ai não sei se vc concorda, era o animal dentro de Pi. No final do filme ele fala algo sobre o ódio, coisas como depois q vc conhece esse sentimento, não levo o filme como uma história literal, mas como uma espécie de mito que tem significados mais amplos e que estrutura uma vida social.

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  4. Parabéns pelo texto Roni. Este é um dos mais espetaculares filmes de Ang Lee, nos transporta na mais imaginativa e fantástica aventura numa trama de sobrevivência. Além do superespetáculo a parte, o filme é lindamente reflexivo. A crença humana totalmente dissecada aqui.

    Abs.

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  5. Roni,

    viu só? Seus textos agradam e MUITO!!!
    besos :)

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"O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho." (Orson Welles)

 

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