A Princesa e o Guerreiro

Grata surpresa este filme de hoje, A Princesa e o Guerreiro. Vi-o por acaso uma tarde dessas e gostei bastante.Gostaria de iniciar a minha análise afirmando que acho que este filme definitivamente assemelha-se a um conto de fadas. Busquemos referências naqueles contos que possuem centenas ou milhares de anos de existência,possuem todos os elementos que uma história do gênero deve possuir, é só observar como os personagens são instigantes,alguns até podem possuir moral duvidosa,sempre há conflitos entre ideais elevados e motivos torpes e para completar,a atmosfera nem sempre é animadora para os protagonistas.
E uma excelente base teórica para ser utilizada como referência para essa afirmação provém de Propp. Vladimir Propp, foi um antigo integrante da escola formalista da Rússia, um movimento crítico que está ligado ao ramo da Teoria Literária,área que eu aprecio bastante.

 O Formalismo Russo tinha a proposta de analisar as obras literárias não pelo seu conteúdo mas sim pela sua forma .Propp foi desligado do grupo por apresentar uma linha de pensamento diferente do grupo do qual fazia parte.Ele então lançou suas ideias de forma independente;estas por sua vez eram mais completas pois apresentavam o estruturalismo de uma forma diferente,levando em conta o conteúdo apresentado.Primeiramente ele analisou antigos contos russos e partir deles chegou à conclusão que as narrativas obedeciam a um certo padrão universal.O(s) personagem(ns) com suas características (arquétipos) e situações chave, aparecem conforme o desenrolar da história e a estes padrões Propp nomeou-os Funções.
E realmente,depois de analisar uma história à luz das Funções de Propp,fica muito mais fácil entender o enredo e destrincha-lo. E é isso que estou fazendo com esse filme com este título tão sugestivo.

Então o esquema da teoria pode ser dividido em duas partes:

As funções:

Afastamento – Um membro da família se afasta de casa;

Interdição – Ao herói é feita uma proibição;

Transgressão – A interdição é transgredida;

Interrogação – O agressor tenta obter uma informação;

Informação – O agressor recebe a informação;

Engano – Logro – O agressor tenta enganar a sua vítima para se apoderar dela ou dos seus bens;

Cumplicidade – O herói deixa-se enganar e ajuda seu inimigo sem saber;

Malfeitoria – Dano – Esta função é extremamente importante, porque é ela que dá ao conto o seu movimento. As sete primeiras funções funcionam como a parte preparatória, a intriga inicia quando ocorre o dano ou malfeitoria;

Mediação ou Momento de Transição - esta função introduz em cena o herói;

Início da ação contrária – O herói decide fazer algo para reparar o dano sofrido;

Partida – O herói deixa a casa;

A primeira função do doador – o herói passa por uma prova;

Reação do herói –O herói supera a prova;

Recepção do objeto mágico - O objeto mágico é colocado a disposição do herói;

Deslocamento no espaço - O herói é transportado para outro lugar;

Combate – O herói e seu agressor defrontam-se em combate;

Marca – O herói recebe uma marca;

Vitória – O agressor é vencido;

Reparação do dano – A malfeitoria inicial ou a falta são reparadas;

Volta – O herói volta;

Perseguição- O herói é perseguido;

Socorro – O herói é socorrido – pode ocorrer repetição da seqüência;

Chegada Incógnita – O herói chega incognitamente;

Pretensões falsas - Um falso herói assume o papel do herói;

Tarefa difícil – Ao herói é sugerida uma tarefa difícil;

Tarefa cumprida – O herói realiza a tarefa;

Reconhecimento – O herói é reconhecido por algum sinal;

Descoberta – O falso herói é desmascarado;

Transfiguração – O herói recebe uma nova aparência;

Punição- O falso herói é punido e exilado ou morto;

Casamento: O verdadeiro herói se casa e herda o trono.

As esferas de atuação:

1ª Esfera - O agressor (o que faz mal)
2ª Esfera - O doador - o que dá o objeto mágico ao herói (talismã)
3ª Esfera - O auxiliar - que ajuda o herói no seu percurso
4ª Esfera - A Princesa e o Pai (não tem de ser obrigatoriamente o Rei)
5ª Esfera - O Mandador - aquele que ordena a demanda
6ª Esfera - o Herói
7ª Esfera - o falso herói

Levando em conta que nem sempre todas as funções aparecem num conto e que as mesmas funções podem se repetir ao longo do enredo e que até os mesmos  personagens podem exercer papéis diversos de acordo com a sua importância no desenrolar da história,algo que se pode discutir sob a luz da análise junguiana dos arquétipos,não nos esquecendo também de Joseph Campbell,Tzvetan Todorov, e muitos outros grandes especialistas no assunto,que se for estendido com certeza rende uma monografia!Esta é a minha definição do filme: Primeiramente vamos ao basicão, digo à sinopse do filme: (Contém spoilers)Jovem enfermeira sofre acidente e é salva por ex-soldado,porém ele desaparece após deixá-la no hospital. Tal ato desperta na jovem uma intensa paixão que leva a procurar por seu salvador. De início ela é repudiada,mas como é persistente e não desgruda do ex-soldado,acaba descobrindo o "hobby" que seu paquera pratica,em parceria de seu irmão mais velho,Walter. E como o personagem Zina, do programa Pânico,ela disse:"Topo,bó cair pa dento" e assim o filme se desenrola com muitos conflitos e revelações. Esta é a minha sinopse e cá entre nós,acho que desse jeito faz mais sentido!O ponto inicial da trama sempre aparenta ser pacífico,com a vida seguindo o seu percurso,tudo na mais perfeita harmonia até que algo muito ruim acontece e transforma essa paz em caos. Ou seja, Simone estava trabalhando quando recebeu uma carta. Lida a carta,resolveu sair com seu protegido,até que...topou com uma pedra,no meio do caminho tinha uma pedra! O ponto inicial é denominado Perigo Virtual.
Observem que conforme a "sinopse" que eu elaborei,houve um terrível acidente no qual Sissi foi vitimada,exatamente porque a criatura estava no local errado e na hora,ou será que é o contrário?
E se ela estivesse no local certo,na hora certa? Depende do ponto de vista do  freguês!

Em risco de morte,Sissi foi salva por Bodo,como um príncipe salva a uma princesa,mas não foi com beijos que ele a salvou,foi com uma traqueostomia...Mas essa traqueostomia improvisada no ponto de vista de Sissi foi sensual o suficiente,como um beijo que um príncipe dá em sua princesa,pois é deste jeito que ela sairá do torpor,foi um procedimento de emergência capaz de inflamar-lhe o desejo que acalentava a muito tempo de ter um homem para chamar de seu,a ponto de deixa-la irremediavelmente apaixonada por seu salvador,que por seu ato de bravura foi imediatamente ao posto de príncipe encantado de olhos brilhantes,aquele cara pintoso que toda garota sonha encontrar um dia.Mas ela ainda não sabe que o seu salvador também é o seu algoz,pois foi ele que provocou o acidente do qual ele mesmo a salvou! Deixada a donzela em local seguro ( no hospital),Bodo desaparece,quem sabe para todo o sempre. Sissi recupera-se mas se vê solitária, puff!  O bofe sumiu!

Ele,na condição de cavaleiro andante e príncipe galante teve que sumir misteriosamente rumo a outras paragens em busca de batalhas e quem sabe eventualmente salvar novas donzelas que surgirem em seu caminho...Talvez pensando nessa possibilidade,Sissi resolveu agir por conta própria e procurar por Bodo,afinal,se ele é o cara que lhe foi prometido antes mesmo da existência de sei lá vamos ver algo bem romântico e exagerado...Qual prometidos desde antes da Criação do Universo,isso,extremamente comprometidos um com o outro antes mesmo de nasceram,se existe essa correlação porque cargas d'água ela deveria voltar para o seu canto e pronto,morreu o assunto?

Mas é claro que ela não vai deixar um homem desses dando sopa por aí,correndo o risco de outra donzela conquistá-lo,seria uma decepção ter o pássaro na mão e deixá-lo escapar!Reconhecendo a valentia de Bodo ao salvá-la do dragão ( caminhão),Sissi passa a procurá-lo pelo quatro cantos que ela conhecia e desconhecia sem descanso! Não interessa quanto tempo vai levar, o Bodo eu vou achar,ele haverá de ter a honra de desposa-la,muito embora realmente ele não tenha ciência dos planos de Sissi,além de não estar preparado para tamanha mudança em sua própria vida e nem esteja minimamente interessado nestas coisas...Sem saber como e onde encontra-lo,nossa querida personagem lança mão de estratagemas engenhosos que ressaltam ainda mais as suas qualidades ligadas ao arquétipo da Princesa.

Sissi,corresponde ao arquétipo da Donzela ( Princesa), e às vezes é irritante observar toda a sua passividade,mas seu ponto forte é a resiliência e provém de um local protegido do mundo externo,de certa forma este local poderá lembrar um castelo bem guardado com torres intransponíveis.Apesar de visitar o mundo exterior com uma certa frequência,Sissi vive num mundo à parte cercada por seu séquito,que, ao invés de ser composto pela criadagem,é composta pelos deficientes mentais da instituição onde ela é enfermeira. Eles são tão leais e apegados a ela como os personagens dos contos. E ela a eles. Sim,além de trabalhar na instituição como enfermeira,ela mora lá. E além de morar, ela NASCEU lá.

Por sua condição,quase que "maldição" de ter nascido neste lugar está fadada a passar a sua vida toda encerrada a menos que o príncipe escolhido venha resgatá-la afim de quebrar essa terrível maldição, e Sissi está crente que esse cara é o Bodo.Vive sonhando acordada,algo bastante corriqueiro no mudo dos contos de fadas.É uma pessoa boa,devotada e servidora,posso até perceber uma pitada de submissão temperada com impulsividade,basta observar a expressão de seu rosto, o modo como posiciona o corpo, o jeito de falar e de agir,tanto com Bodo como com os internos e os outros funcionários. Muito naquelas de " princesa ocultada por vestes em farrapos de camponesa".
Apesar de ser afável e paciente,ela não é burra ou tola,muito pelo contrário este é o seu trunfo, é a sua aparência de simples enfermeira inofensiva que a torna uma guerreira,é o efeito surpresa. E quem disse que uma princesa não pode ser guerreira? Sem levantar suspeitas ela pode usar e abusar de suas estratégias para conseguir o efeito que quiser em seu benefício.Não é por causa de sua condição de princesa e mulher que ela se permitirá ser burra. Uma boa princesa deve ser astuta e ser hábil na resolução de conflitos, e o interessante é que podemos ver que essa característica é marcante na personagem o que influi diretamente na evolução da história. Por exemplo,de certa forma,foi de uma esperteza desconcertante o modo como utilizou um paciente para reverter uma situação que não foi propícia e assim obter mais informações sobre o seu pretendente.Ri litros internamente!A personagem de Franka Potente reúne todos estes predicados que a justificam como a Princesa do  título e além de toda essa construção,ela tem nome de princesa da vida real,que era austríaca. A atriz é perfeita para o papel com seus traços singulares,seu charme é justamente não se encaixar no padrão,exatamente como a sua personagem,não é forma,é conteúdo! E quem disse que para ser princesa tem que ser estupidamente bonita? Carlota Joaquina era princesa,era feia,mas bitch please,era uma predadora sexual sem igual!
Voltando ao filme, tantas a moça fez que finalmente conseguiu encontrar o seu Bodo. O rapaz praticava exercícios ao ar livre quando a garota o encontrou e eu solidária como sou,imagino o filminho romântico que se desenrolava na cabeça de Sissi,enquanto seu coração estava cada vez mais disparado,a cada passada vacilante que dava em direção ao seu objeto de desejo! Como se pressentisse algo,aquele homem iria para de se exercitar e a olharia nos olhos,expressando um largo e suado sorriso,pois como que por encanto ele se apaixonaria instantaneamente por aquela loirinha que já o amava desde de sempre. Em recompensa por tão longa espera trocariam beijos que logo se tornariam um amorzinho básico,(Cai fora Walter,vai fazer sopa pa nóis),um love daqueles furiosos e sôfregos que servem para o reconhecimento daquele terreno que já é seu,mas que só agora tens o direito de estar nele,aiai!O cenário tem que ser o mais bucólico possível,de preferência, a Natureza tem que servir de testemunha do enlace primordial,em que eles na condição de uma só carne não podem ser mais separados por nada nem ninguém neste mundo... Acorda Sissi,acorda você também Ana Carolina! A pobre coitada sofreu um golpe baixo do cacete ao deparar-se com uma realidade muito diferente daquele sonho que ela acalentou por tanto tempo! Bodo era feio,cara! Não feio no sentido físico,ele é um homem bonito,sarado e gostoso,mas é feio por dentro,o que me lembra que logo no início,cheguei a compará-lo a um sapo. Coitadinha da Sissi,como na música entoada por Cássia Eller,seu príncipe virou um sapo,literalmente!
Bodo é um cara bruto,não deu a mínima para a Sissi,humilhou-a,a ponto desta ficar embaixo de chuva, e principalmente,a repeliu e por incrível que pareça,ela pareceu não se abalar,continuou investindo firme no gajo. Como não deve ser a primeira vez que ela toma uma traulitada na vida aprendeu a levantar toda vez que for derrubada e encarar os desafios de frente,sem reclamar,ou talvez não,talvez seja a esperança excessiva energizando-a,por sua inexperiência com assuntos do coração,realmente fica esta dúvida se ela teve esse tipo  de experiência,creio eu que não, mas esta parte de seu histórico não faz parte do filme.
É por isso que sua insistência perante as recusas de Bodo são tão tensas: Ele capricha no "tratamento",só chega na voadeira...Meu sangue ferveu nesta hora e eu fiquei com raiva dos dois! O Bodo tratou-a com tanta impiedade e violência esmurrando-a como se fosse um grandalhão como ele que eu acabei esbravejando:Seu animal!Fiquei com raiva da Sissi também, por insistir em se aproximar desse cara que só quer saber do próprio umbigo e que ela e o mundo se exploda! Com ela esbravejei assim: Burra,não tá vendo que ele não te quer? Cai fora! De repente,olho pro meu marido que fala-Fica quieta,sua doida!-cascando o bico legal,só olhando as minhas reações e foi aí que a ficha caiu: Porque estou reclamando da Sissi? Eu fiz o mesmo que ela,saí da minha redoma de vidro atrás do meu cavaleiro errante e tantas vezes ele me rejeitou não é mesmo? Uma rota falando de uma rasgada!Walter, o cara que ia fazer "uma sopa pa nóis", é o irmão mais velho do Bodo e é mais um personagem em que as funções de Propp podem ser aplicadas com êxito.Observem suas atitudes: Vendo o jeito alterado com que seu mano trata a mina,Valter tenta apaziguar os ânimos,dando conselhos a ambos,repreendendo-os e confortando-os dando-lhes oferecendo algo que lhes aqueceria,água que passarinho não bebe, ou talvez beba sim,só para conseguir pegar o inseto que está no fundo da garrafa! rs Walter é a voz da razão e assemelha-se a uma pequena ilha cercada de imprudência por todos os lados!

Sua função é ser um auxiliar/conselheiro/protetor do(s) protagonista(s). Exemplos dessa função podem ser observados no " O Senhor dos Anéis" e The Walking Dead, só para ilustrar como é . No primeiro, Sam,amigo e criado de Frodo Bolseiro auxilia-o em sua jornada heróica,pois para ele é algo tão natural que não é visto como obrigatório,afinal ambos cresceram juntos apesar da família de Sam ser criada da família de Frodo.
Cara,se não fosse o Sam, o Frodo não chegaria nem à esquina sem estar lascado,até mesmo morto,pois o grosso quem faz é o seu amigo que sente literalmente na pele as agruras do que é enfrentar perigos para que Frodo,mesmo fazendo muita burrada possa destruir o artefato maligno. No segundo, o posto de conselheiro pertencia a Dale e com sua morte Herschel passou a exercer este importante papel,pois sendo mais velho e experiente,aconselha o líder Rick e muitas vezes quando este está pirando da batatinha, o bom velhinho dá um sacode moral nele, e não só o líder aconselha-se com ele,todos no bando procuram-no para buscar algum alento. A presença do velho fazendeiro dá uma segurança familiar ao grupo evitando que haja uma histeria coletiva que enlouqueça de vez seus amigos e os lance à morte certa.

Recapitulando: Walter corresponde ao arquétipo do conselheiro/ajudante de herói e suas características mais marcantes são a prudência, o instinto protetor, a sabedoria, a lealdade e a sinceridade. Infelizmente,ele morrerá,mas este será o seu auge na trama,pois morrendo ele força Bodo a tomar alguma atitude com relação à sua vida e supere os obstáculos que o impedem de vivenciá-la plenamente ( "Saia do banheiro" ), o que de fato causa grande impacto no rapaz,afinal seu irmão estava morrendo por sua culpa,mesmo que indiretamente e ele sabe que falta de conselho não foi e quando se vê em um momento crucial de sua vida lembra das últimas palavras de seu irmão e resolve arriscar ao menos uma vez. Tô pensando aqui,tudo isso poderia ser evitado,mas o Bodo é zicado mesmo hein,ele não poderia ter desistido deste" hobby" ?
Mais do que repassar o bastão da vida de Bodo ao próprio Bodo,Valter cumpriu sua função como seu protetor e o seu trabalho já estava concluído e partiu sem guardar rancor ou culpar seu mano mais novo. Um desfecho digno de uma fábula...Vale lembrar que Walter bem que tentou demover Sissi da idéia de se aproximar de seu irmão com a artimanha do " senta toma um gole",porém ele não teria como adivinhar o poder que a rege, sua capacidade incomum de perseguir aquilo que maquinou romanticamente em sua mente. Na boa, ela deveria se candidatar a estrelar filmes de terror,com certeza ganhará um papel como assombração,afinal,sua presença é mais persistente do que a dos encostos,desculpem-me a comparação!
Servido o goró maroto,Walter foi direto e reto: Bodo está fechado para balanço porque é um perturbado das ideias! Nessa hora comentei com o meu marido: Ih,eu já desconfiava! E ele obviamente não havia pensado nessa possibilidade mas comentou que dessa vez ela ia arregar,se não foi pela traulitada que levou seria então por causa do fardo de carregar um parceiro neste estado pelo resto da vida! Ao que eu retruco: Ah,marido,não sabes de nada,ela vai continuar atrás dele,espere e verá! E não deu outra!A mulher de Bodo morreu durante a explosão de um posto de gasolina e ele não digeriu bem a situação,tornando-se aquela pessoa feia que ela encontrou. Meu marido aceitou "de boas" esse argumento,mas eu suspeitava que ele já fosse feio antes mesmo de sua mulher morrer,as atitudes tempestuosas que ele tem são apenas exteriorização de quem ele é por dentro e óbvio que o meu marido puxou sardinha para o lado de Bodo e todos os homens da galáxia,quando disse que eu generalizava demais,porém mais uma vez meu instinto estava correto,pois bem lá na frente,no momento "Confissão Total" entre Sissi e Bodo,ele revela que no dia em que sua mulher morreu,eles brigavam enquanto dirigiam pela estrada então pararam para abastecer e o acidente ocorreu,por isso sente-se muito culpado,aliás vai muito além,sente-se oprimido pelo fantasma da mulher,fantasma que sua própria mente criou como forma de auto punição.

E tem mais,durante um delírio esquisito ele estava nu,e chorava, uma situação inusitada para um homem -e chorava no colo de uma mulher, parece-se um pouco com Sissi,pois também é loira e em parte isso explica porque Bodo salvou Sissi,na verdade ele nem a enxergou,era sua falecida mulher que ele via ali diante dele. Eu não falei que ele era um sapo? Ele tinha um defeito,algo ruim aconteceu por conta deste defeito e como punição ele ficou perturbado mentalmente. Como é um conto de fadas,somente a dedicação sincera de uma princesa pode quebrar esse feitiço.

Cá entre nós, o goró não surtiu efeito em Sissinha,porque logo após a conversa com seu cunhado foi arremessada à lama literalmente, no meio da chuva,algo que eu mesma achei " ih, agora a porra ficou séria",depois dessa ela desistiria,que humilhação! Mas que nada, deu medinho? Deu, mas só a estimulou a não largar o osso.

Querem saber? Achei a atitude de Walter bem ingênua,tentar colocar medo dizendo que o cara é trolha da cabeça justamente numa pessoa que é enfermeira psiquiátrica e tem que lidar com pessoas com diferentes níveis de necessidades médicas nesta área! Ele realmente não se atentou quem era esta garota,meu marido também não,mas eu já desconfiava. Como eu disse Sisi além de ser enfermeira do local,nasceu lá mesmo, filha de internos,não tinha família,a mãe morreu eletrocutada na banheira,uma história muito obscura por sinal. Sendo filha de pessoas com distúrbios como a colocaram num cargo desses?
Com certeza sua infância deve ter sido ruim,devem tê-la testado para comprovar que não herdou a condição de seu pai...Mas pelo que podemos ver,ela é competente em seu cargo apesar dessas loucuras em se meter em confusão por causa de idealizações. O próprio Bodo a questiona,após receber acobertada no hospital de onde ela provém,porque qualquer outra pessoa iria querer que ele se lascasse,pois a maltratou de todos os jeitos e ela ao invés de se vingar,se arrisca por ele.Ela só pode ser doida mesmo Bodo! Mas porque um doido haveria de estranhar a loucura de outro doido? Sissi é o exemplo vivo daquela máxima " De médico e louco todo mundo tem um pouco". E como Bodo foi parar lá? Bodo corresponde ao arquétipo do herói, as características que definem um herói são as qualidades otimizadas que as pessoas comuns gostariam de ter mas não tem por diversos motivos,por exemplo nosso príncipe consorte é extremamente fraternal,paciente,tem força de vontade para realizar projetos de alta complexidade,não suporta injustiças... Por outro lado, o herói muitas vezes não se dá conta que é um herói e não sabe que possui essas virtudes,portanto seus atos supremos são motivados por interesses egoístas,como a cobiça, a vingança, o ódio, afinal ele também é humano! Só mais à frente é que ele descobrirá esses valores,quando for posto à prova,contando sempre com o auxílio de colaboradores que o admiram - e com inimigos também,porquê não? Geralmente,quando o herói sacrifica-se em prol do que acredita,esse ato é denominado martírio.
 No caso de Bodo,ele martiriza a si mesmo, por causa da morte de sua mulher, portanto busca vingança de si mesmo arriscando a sua vida em roubos arriscados. Como todo herói ele é impulsivo e isso se reflete nas proezas que ele pode fazer com o seu corpo,como o vemos no início do filme,durante a fuga que acabou vitimando Sissi por acaso.
Sua revolta consigo torna-se um impulso cada vez mais acirrado de por fim às injustiças deste mundo que tirou-lhe tudo o que havia mais de querido em sua vida,sua zona de conforto foi quebrada,"então que se foda essa porra,vou tirar algum lucro disso", o que denota uma  certa insensibilidade neste excesso de sensibilidade, os sentimentos que deveriam ser elevados tornaram-se rasos,materialistas,justo o que podemos observar toda vez que nossa protagonista aproxima-se dele,acho que deve ser atordoante para ele os gestos da princesa,realmente não há o que esperar da humanidade quando justamente até você torna-se corrupto.Bem naquelas mesmo de "por fora sepulcro caiado,por dentro podridão." Não conseguia parar de me irritar com o fato dele ser tão boçal,até mesmo quando começou a aceitar a companhia de Sissi!

Esta é a minha conclusão sobre Bodo:

Ele pode até ter sido um guerreiro no sentido físico da palavra,uma vez que trata-se de um soldado,portanto tem noções de estratégia,combate corporal,sobrevivência em diversos tipos de situações e ambientes,porém apesar de ser forte neste sentido,ele tem a mente muito fraca, e eu não acredito que sua mente seja fraca apenas por causa da terrível morte de sua esposa;essa  já era uma característica do personagem anterior ao seu suposto trauma,digamos até que ele tivesse um certo nível de deficiência em sua personalidade e digamos que Sissi é expert no assunto,afinal ela é enfermeira de uma instituição para deficientes mentais,em verdade e na verdade eu vos digo que ela é bem mais do que uma simples enfermeira...Sua força foi o "remédio" que Bodo precisava! Então vejo-os em papéis trocados, Sissi a princesa guerreira e Bodo que está longe de ser um príncipe,ele é um tolo,então classifico-o como o sapo,pois o sapo como em todo conto de fadas,após receber um gesto verdadeiro, e acredito que nesse caso,apenas um beijo não surte efeito porque o caso é sério,o sapo com o gesto verdadeiro da princesa guerreira que não é a Xena,torna-se capaz de metamorfosear-se em príncipe,belo e cheio de boas virtudes...combinemos que as riquezas materiais não estão em pauta,pode ser um príncipe pé rapado mesmo! Sissi, a princesa e Bodo, o sapo que espera ser liberto do mal feitiço e deixar de ser um tolo por causa de suas ações e personalidades igualmente tolas...É a redenção que todo herói precisa passar para servir de exemplo para aqueles que se guiam por sua coragem!
Escondidos no hospital psiquiátrico,pois é o único local onde a polícia não vai procurar os suspeitos do assalto ao banco que acabara de acontecer e que por acaso são eles dois, Sissi e Bodo passarão por situações que definirão o rumo que suas vidas levarão daquele ponto em diante.Bodo apesar de ainda estar focado muito em si mesmo,passa por um processo de "despersonalização", ao ser acolhido na instituição,porque apesar de ser um local para tratamento de pacientes mentais, é um local tranquilo e familiar e pela primeira vez,apesar do choque da morte de seu irmão no assalto que haviam programado e que acabou tendo complicações( devido à natureza impulsiva do rapaz )percebeu que poderia contar com Sissi. Ela meio que substituiu Walter no tocante aos cuidados com a sua pessoa ganhando a sua confiança. Não tinha como ele amar aquela garota que ele mal conhecia,mas é inegável que ela o estima tanto, passou a ser interessante tê-la ao seu lado,quer dizer muito mais importante que legal,ela tornara-se vital,de mansinho...Mas a sua mágoa ainda era empecilho.A zona de conforto da personagem de Franka Potente começou a desmoronar assim que ela conseguiu o seu intento,com muita dificuldade,muita mesmo,de ter o bofe histérico ao seu lado,imagino que tê-lo perto de si no local onde cresceu alimentando tantos sonhos silenciosamente,deve ter um gostinho muito especial,que só ela sabe,porém a estada de Bodo causa uma alteração no ambiente e cada um dos residentes terá um tipo de reação diferente,afinal como em conto de fadas, o universo conspira contra a união do inusitado casal,forças contrárias tentarão impedi-los de conseguir a tão sonhada libertação.
 Aquele mundo que até então parecia-lhe familiar,de repente começou a ganhar contornos hostis,pela primeira vez eu a vejo realmente desesperada,cadê a sua autonomia,cadê a sua privacidade,cadê a sua "vida normal" como pessoa "normal". De repente aquele séquito fiel começa a voltar contra ela e Sissi está desconfortável com isso,ela se desespera por ser "disputada" por seus interesses particulares que parecem frustrados e a "mesquinhez" ingênua das pessoas de quem ela cuida. Eu entendo que em sua cabeça,literalmente ela foi lançada num labirinto quase intransponível,sem saber que direção tomar,se pensa exclusivamente em si mesma ou se pensa exclusivamente neles,teria ela coragem de mudar suas prioridades?
Todos estão no encalço de Sissi,todos querem a Sissi para si,ninguém quer saber se a Sissi é feliz ou não desde que a Sissi não os deixe,ô Sissi,cuida de mim! Apesar dos outros internos,todos eles com diferentes níveis de deficiências mentais,mesmo aqueles mais perigosos como aquele que a atacou porque vozes o ordenavam,teve um impacto tão forte em sua vida naquele momento.Acredito que os que mais colaboraram com a crise de identidade de Sissi,foram dois: Otto, o ceguinho e  Steine,o pequinês tarado.Otto,o ceguinho,é um doce,é inocente e tem até muita lucidez,se comparado aos outros internos. Jovem como a sua cuidadora, ele tem uma beleza insípida, com sua roupinha "leite com pera" e "cabelinho boi lambeu ",deu até para sentir o cheirinho de talco aqui do outro lado da tela.Companheiro de andanças,cúmplice de sua busca,não se agrada nem um pouco do novo hóspede e das atenções que sua amiga lhe dispensa e tenta suicidar-se de um modo tão terrível,que eu tive calafrios de assistir à cena! A pobre moça chocou-se com razão,afinal era tão dedicada a ele!Na verdade, ele nutre um amor não correspondido pela enfermeira,pelo menos não é correspondido do jeito que ele gostaria que fosse. Se vocês repararem nas cenas iniciais do filme,Sissi faz experiências sensoriais com ele e eu percebi que aquele sorrisinho que ele dá está além da descoberta de que a pele se arrepia com o frio...Ele devia estar se arrepiando por sentir outras coisas...É,pelo menos esse não precisa de revista de mulheres nuas para se masturbar rs. E meu marido nem percebeu esse tombaço que o menino tinha pela loira,como é que pode!

O outro paciente ,Steine,o pequinês tarado, este sim meu marido pensava se tratar de um louco obcecado a por Sissi,também,pudera! Steine tem um visual paradoxal,é pequenino e estranho,porém emana uma energia sexual intensa,algo que eu identifico quase como uma perversão. Ele tem o olhar daqueles cães da raça pequinês,que te olham com seus grandes e esbugalhados olhos e ficam balançando o rabinho... daí quando menos você espera ele vem e 'crau'! Fica "pinçando" na sua perna e não quer sair de jeito nenhum,é bem assim que eu enxergo este indivíduo. Ele a seca com o olhar,joga charme,agarra o seu corpo e começa a bailar no pátio do hospital...E a moça visivelmente incomodada com essas atitudes,apenas aceita calada,afinal,assim acaba mais rápido né? Até masturbação ela acaba fazendo nele,por causa de tanta insistência da parte dele, e essa parte acho muito tensa,pois ela o olha mas é como se ela não estivesse ali, e ´estranho quando ele diz VOCÊ É A MINHA GAROTA. Quando Bodo vai parar no hospital e finge-se de louco à mando de Sissi para escapar da polícia,Steine sempre está vigiando-a , tenta tolhê-la,sabe que ela deseja ir e para impedir resolve ligar para a polícia,mas diz que Bodo está morto. Meu marido achou que foi uma boa ação por parte dele,mas eu sabia que alguém ambíguo e pervertido, à semelhança de Smeagol ( my precious), não faria um ato de aparente boa índole,sem ter um pensamento muito prejudicial por trás disso e eu estava certa! Ele tenta matar Bodo com uma torradeira elétrica durante o banho!Adivinhem quem morreu eletrocutada por um secador enquanto tomava banho? A mãe de Sissi,aquele enfermeira que aparece nos delírios dela logo no começo do filme. Sinceramente,se ele é o pai dela,isso torna todo o sofrimento pelo qual ela passou pior,muito pior...Steine é o tipo de personagem que acaba por se revelar um vilão no final,sem chances de recuperação.

Quando ,Bodo conta como Steine tentou matá-lo,tive a impressão que a história da vida de Simone,conforme ela mesma revelou ao seu amado,escondia algo muito mais sombrio que nem ela sabia,mas que por acaso,acabara de descobrir. Confrontado,o pequinês blefa,dá uma de "João sem Braço",diz que vai pular mas não pula. E vendo que se continuasse ali esse ciclo vicioso não teria fim,a polícia estava lá no encalço deles,graças às "obras" do pequinês,então tecnicamente estavam sem saída. Pensando rápido, ela dá as mãos à Bodo toma impulso e se joga, literalmente. Detalhe: Ele concorda sem vacilar. Com apoio de sua amiga enfermeira,que a ajudou,mesmo sabendo que eles eram foragidos,eles pegaram a estrada .Precisando parar no posto de gasolina, o mesmo que vitimou sua esposa, de repente Bodo se duplica.O Bodo que vai dirigindo é o rancoroso, com coração duro,não aceita que Sissi o acalente . O Bodo no banco dos passageiros é o Bodo em seu estado puro com todas as qualidades que deve possuir,é gentil , maduro,sem traumas,bondoso,aberto para o amor,pronto para retribuir a dedicação que ela tem por ele...Esta é a hora da transfiguração,hora de combater o último e mais terrível inimigo,ele mesmo.
Hora de cegar para sempre esse algoz,deixar todas as lembranças e atos ruins para trás e recomeçar a vida. O Bodo antigo fica para trás e o transfigurado assume o volante, do carro e da vida,principalmente, ao lado de Sissi,que deve ter estranhado pra cacete essa mudança repentina,se é que ela percebeu esse processo interno que ocorria com o seu eleito primordial. O que interessa é que ela gostou do babado!
Juntos encaminham-se para a casa da amiga de Sissi,aquela que enviou a carta. Esta personagem eu considero uma doadora. Foi através de sua carta que houve uma revolução na vida de todos os envolvidos,direta ou indiretamente,foi essa carta que proporcionou a união dos dois,pois a mesma senhora que Bodo ajudou a enterrar,era a mãe dessa amiga,seu amuleto mágico foi aquele relicário,com certeza. Não entendi bem a origem dessa amiga de Sissi,se era enfermeira do hospital,se era paciente. Está mais para paciente,pois fala de um jeito significativo sobre o oceano,como se nunca antes tivesse a oportunidade de vê-lo de perto e Sissi também sonhava com a imensidão do mar...
E lá estava ela de braços abertos para recebê-los em seu novo castelo,praticamente um castelo de conto de fadas,erguido sobre o rochedo tendo o mar ao fundo,como o castelo da infância de Morgana,situado em Tintagel,em "As Brumas de Avalon"... Belo desfecho! A Princesa e o Guerreiro não é um filme que possa ser assistido superficialmente,sob o risco de ser considerado sem pé nem cabeça ou insosso demais para quem só considera os CGs de última geração mas não se liga no enredo. Obviamente ficarão faltando partes a serem expostas, pois foi extremamente difícil finalizar esta postagem,apenas um notebook para duas pessoas não dá certo! Não há prejuízo algum com isso,muito pelo contrário,sintam-se atiçados a preencherem estas lacunas com o auxílio da lista de funções proppianas que deixei logo no início,é um exercício divertido.Também é um filme raro,difícil de encontrar até para download,quem conseguir  baixá-lo guarde-o como tesouro!



Espero que tenham gostado,

                                                                                                                          Beijocas!

1 comentários:

  1. Aninha,
    Como disse anteriormente, digno de uma introdução de doutorado ;)
    Adorei assistir ao final do filme,rs. Ainda não vi inteiro...rs. E creio que quando ver vou linkar ao seu texto.
    Porra, amei sua análise!!!! Continue assim viu?

    ResponderExcluir

"O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho." (Orson Welles)

 

Google+ Followers

Follow by Email