Sujeito e metamorfose: Pessoas e cisnes



À memória de Heath Ledger

O filme Cisne Negro é um prato cheio para psicanalistas e críticos de artes, particularmente das artes do corpo, e obviamente, Cisne Negro é um presente para a própria categoria. Como não sou e nem pertenço a um lugar, nem outro, tentarei fazer alguma consideração do alto da minha ignorância, mas certo de uma coisa, será uma ignorância somente minha. 

O Cisne Negro desvela sobre a possibilidade de construção de um personagem, a luta pela possibilidade de desfazer-se de um personagem por um instante e vestir outro, mas será que é possível alguém desnudar-se de si e construir um outro eu? “Quem de nós conseguiríamos incorporar os dois Cisnes?”. Como é possível sair de uma pessoa singela, frigida, frágil, quase sem personalidade e as vezes até covarde e transformar-se em uma pessoa sombria, sedutora, dissimulada, forte e decidida? E certo de que “o trabalho de verdade é a metamorfose na irmã gêmea malvada” e esta é perfeição de quem atua um papel, transmutar-se. Logo nos deparamos com o maior problema colocado no filme, “perfeição não é apenas o controle, também é se deixar levar.” Este é o fio do labirinto do minotauro que nos levará ao encontro de uma verdadeira tragédia.

Nina, bailarina recatada e tímida, é perfeita para o cisne branco: aparentemente virginal, pura e doce. Sua mãe, obcecada pela carreira da filha, tenta protege-la de todas as maneiras, faz dela o perfeito cisne branco. Imperativa e controladora tenta objetivar seus desejos frustrados de bailarina na filha, “não quer que cometa o mesmo erro que ela”, “desistir da carreira pela filha”, contudo, o questionamento de Nina é fundamental para entendermos a relação, “que carreira?”, “você tinha 28 anos”, ou seja, nunca existiu carreira, a verdadeira carreira dela era fazer da filha a maior das bailarinas, sem saber que seu excesso de cuidado na verdade a tornava tão delicada e límpida quanto cristal, entretanto, também frágil.

 Thomas, diretor do espetáculo, o homem que tem a chave que desencadeara toda a metamorfose de Nina. Ele sempre achou Nina Frígida, mas perfeita, ou perfeita, mas frígida. O que o filme sugere é que ele quer fazer um desafio a si mesmo brincando com o desejo alheio, quer fazer daquilo que parece puro e ordenado emergir de si o que há de mais sujo como a inveja, a raiva e a desconfiança, em suma, o caos. Ele é o verdadeiro mestre da sedução, considerando que todo mestre da sedução conhece as ambições dos outros e brinca com elas até não o satisfazer mais. No entanto, ele mesmo é fraco ao mostrar-se intimidado pela interrogação de Nina já transmutada em cisne negro. Ele afirma que ela não fará o papel de cisne negro, e ela responde “se ele quer mais uma controvérsia depois da Beth”, ele se afasta com um cínico sorriso dizendo “que a única pessoa no caminha dela é ela mesma, portanto, livre-se dela”. Ele deseja uma mulher forte que possa domina-lo, mas tende a sempre repetir este tipo de relacionamento.  Por isso há uma peculiaridade nele que estrutura boa parte do filme, ele é um bom conhecedor de personalidades e as manipula da forma que deseja, mas não conhece suas personas na medida em que repete a mesma forma de tratamento a suas principais estrelas (ou seduzidas). A prova cabal deste fato é que ele repete com Nina, após seu triunfo nos palcos, o chavão “minha princesinha” que dizia à Beth, a deposta rainha dos cisnes.

No entanto, Nina é maior que isso, ela deseja a perfeição. Próximo do auge de sua metamorfose ela afirma ser o cisne negro e rompe com a excessiva influência de sua mãe dizendo “foi você quem nunca tinha saído do corpo de baile.” Por isso não havia resposta mais perfeita para representar sua ruptura com a antiga Nina – que também representa uma ruptura com a mãe – que a resposta à pergunta da mãe, “cadê a minha menina?” Nina responde, “Ela se foi.” Assim, quem ocupa o novo lugar é o cisne negro, mas é possível habitar dois personagens em um corpo? Lembremos que não é a substituição de um personagem pelo outro e nem alternar um personagem e outro, que, diga-se de passagem, é recorrente com Nina boa parte da história, uma espécie de bipolaridade que tem que achar um lugar, o corpo de Nina. Mas como havíamos posto antes “Quem de nós conseguiríamos incorporar os dois Cisnes?”. Incorporar significa dar corpo, ou seja, dar forma a algo e neste caso se trata da vontade de ser um cisne negro, não é atoa que o filme foi feliz em transforma-la literalmente em um cisne, com toda a dor que só uma metamorfose pode causar. O corpo é uma das peças centrais do filme, justamente por que o corpo da primeira Nina (o cisne branco) é um corpo que quer se esconder, que se envergonha do que é, enquanto o segundo (o cisne negro) mostra-se, intimida. Logo, Nina não é exatamente bipolar, ainda por que ela não está aprendendo a manipular personagens, mas a própria persona, na medida em que tem que mergulhar de corpo e alma no próprio desejo até o ponto de não sabermos o que é corpo e o que é alma, assim como Nina não sabia quem era a persona e quem era a personagem. Por um momento ela consegue sentir a perfeição, sabe o que é ter dois personagens dentro de si, sabe usa-los no momento em que são exigidos, ainda que para isso custasse-lhe a vida, típico das belas tragédias – ainda que não grega.

Ao contrário de Thomas que só sabe o que quer e da maior parte dos sujeitos de nossa sociedade – que desenvolvem personalidades do tipo frágil e, então ficam se culpando por tudo neste mundo, ou que desenvolvem personalidades do tipo fortes e, então tem de ficar procurando culpados para todas as desgraças no mundo, o que fica evidente o quanto não sabemos quem realmente somos – Nina sabe quem ela realmente é no momento em que lhe é exigida: ela é o cisne negro, mas ela também é o cisne branco ou vice-versa.  


1 comentários:

  1. Roni, meu anjo vestido de Sparrow
    hehe
    AMEI o texto e estou com os olhos lacrimejados :D
    Muito bem escrito e FOTO belissima!
    Obrigada, por me ajudar a construir esse sonho do meu blog sobre filmes.
    Ainda quero deixa-lo mais perfeito e divulgar MUITO para que tenhamos muitos leitores.
    Por favor, poste uma vez ao mês???
    Diga que siiiiiiiiiim hehe
    beijo enorme
    qq coisa call me
    Patt Baleeira

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"O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho." (Orson Welles)

 

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